O Imperador Erudito


​08/03/2012
POR MAURICIO

Pode parecer estranho, mas a história do Brasil possui uma curiosa relação com o Império Romano. Bem, sabemos todos que o Império Romano começou com o Imperador Otávio Augusto, após a morte de Júlio César, no ano de 27 aC. Seguiu como um império único até o ano de 395 dC, quando, com a morte de Teodósio, se dividiu em dois: o do Oriente e o do Ocidente. O Império Romano do Oriente, com capital em Constantinopla, se manteve até o ano de 1453 dC, quando os turcos otomanos tomaram a cidade. Já o do Ocidente terminou bem antes disso, em 476 dC, quando foi invadido pelo bárbaro Odoacro.

Acontece, porém, que os bárbaros que invadiram o Império Romano do Ocidente já tinha se “romanizado”. Muitos eram cristãos e a cultura e os valores romanos haviam permanecido na Europa. O latim, por exemplo, permanecia como o idioma dos eruditos. Ocorreram, assim, diversas tentativas para restaurar esse império, como aconteceu com Justiniano, por volta do ano 540 dC., cujo projeto só não se concretizou por causa do avanço dos árabes, embalados pela expansão do Islamismo, recentemente criado por Maomé em 610 dC.

Ao redor do ano 800 dC, um novo império foi criado por Carlos Magno, inicialmente chamado de Império Carolíngeo, e que se transformou posteriormente no Sacro Império Romano Germânico. A velha Roma, assim, estava restaurada, cobrindo uma área que corresponde à Alemanha, Bélgica, Holanda, República Tcheca, Áustria, Suíça, Eslovênia e partes da França, Itália e Polônia (paradoxalmente, não incluía a cidade de Roma).

Extensão do Sacro Império Romano Germânico

O Sacro Império Romano Germânico durou mil anos (só para comparar, o Império Romano do Ocidente durou metade disso) e sucumbiu durante as Guerras Napoleônicas em 1806. Foi também denominado de I Reich*.

O último imperador do Sacro Império foi Franz von Habsburg-Lothringen (1768-1835), cujo nome foi aportuguesado para “Francisco II”. Com o fim do Império, seu território foi dividido e Francisco ficou com uma parte oriental, dando origem ao Império Áustro-Húngaro, que durou até a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Com isso “Francisco II” do Sacro Império Romano se tornou “Francisco I” da Áustria.

Francisco I da Áustria (1768-1835)

Francisco I se casou 4 vezes. Com a segunda esposa (sua prima) teve 7 filhos. Uma delas se chamava Caroline Josepha Leopoldine Franziska Ferdinanda von Habsburg-Lothringen. As monarquias europeias sempre tiveram o hábito de promover casamentos entre si, de forma a estreitar os laços entre os diferentes países. Tratava-se, assim, de um processo diplomático antes de tudo. Nesse sentido, Francisco I entregou sua filha à Corte Portuguesa, para que Dom João VI casasse seu filho, Pedro de Alcântara. O gajo precisava tomar juízo, dizia o pai.

Àquela altura, a Corte Portuguesa estava no Brasil, pois havia fugido de Napoleão em 1807. Dessa forma, no ano de 1818, uma grande festa ocorreu no Rio de Janeiro, em comemoração ao casamento de Pedro de Alcântara com a princesa austríaca, cujo nome foi aportuguesado para “Maria Leopoldina de Habsburgo”. Assim, o príncipe português se casava com uma legítima princesa do “Império Romano”.

Dizem que as festas em comemoração a esse casamento foram tão eufóricas, que teriam dado origem ao Carnaval do Rio.

Três anos depois, em 1821, a Corte Portuguesa voltou para Portugal, mas Pedro de Alcântara e Maria Leopoldina ficaram no Brasil. Dom João VI, ao partir, sabendo que o Brasil iria querer ter seu próprio imperador, teria dito ao filho: “Que sejas tu, que há de me respeitar, antes que um aventureiro lance mão”.

As Cortes Portuguesas, porém, não aceitaram a permanência de Pedro de Alcântara no Brasil e exigiram sua volta para Portugal. Em resposta, no início de 1822, Pedro disse: “Eu fico!” (tornou-se o “Dia do Fico” em 09/01/1822). A pressão foi crescendo, até que finalmente em 7 de setembro de 1822 o Brasil se tornou independente. Pedro de Alcântara se tornou “Dom Pedro I” e Maria Leopoldina de Habsburgo passou a ser a “Imperatriz Leopoldina” (anos depois virou até uma escola de samba). Conta-se que Maria Leopoldina teria sugerido que a bandeira do novo Império tivesse as cores da “Casa de Habsburgo” (amarelo) e as cores da “Casa de Bragança” (verde), simbolizando a união dessas duas casas. Ou seja, nada de “amarelo por causa do ouro” e “verde por causa das matas”, simbolizando as riquezas do Brasil, como costumavam nos ensinar.

Tiveram 7 filhos. O caçula nasceu em 1825 e foi chamado também de Pedro, em homenagem ao pai. Mal sabia, porém, que o destino lhe reservaria momentos muito difíceis. No ano seguinte, com apenas 1 ano de idade, o menino Pedro perdeu sua mãe. Maria Leopoldina faleceu em 1826, no Rio de Janeiro, com somente 29 anos de idade. Acreditava-se que Maria Leopoldina teria morrido devido a complicações de uma fratura que teria sofrido ao ser agredida pelo marido. Mas, recente exumação de seu corpo afastou essa possibilidade.

Além disso, nesse mesmo ano, morreu também o avô do menino Pedro, Dom João VI, em Portugal. Com a morte de Dom João VI, travou-se em Portugal uma guerra pela sucessão do trono português, pois sua controversa esposa Carlota Joaquina queria emplacar o filho Miguel como rei, com o que Dom Pedro I, mesmo estando no Brasil, não concordava. O fato é que, com a disputa, Dom Pedro I sentiu-se forçado a voltar para Portugal para a luta sucessória. Assim, em 1831, renunciou ao trono brasileiro. O menino Pedro, com apenas 5 anos de idade, foi abandonado pelo pai. Dom Pedro I voltou para Portugal, venceu a guerra e se tornou “Dom Pedro IV”, Rei de Portugal. Mas, tuberculoso, morreu em 1834, aos 36 anos de idade. O menino Pedro ficou órfão novamente, agora de pai, aos 9 anos de idade.

Então, Pedro foi um menino que nunca conheceu um lar com pai e mãe e que, aos 5 anos de idade, recebeu em seu colo a responsabilidade de um Império a governar. Sua maioridade foi antecipada e, aos 15 anos de idade, foi coroado como “Dom Pedro II”, Imperador do Brasil em 1841.

Pedro cresceu atormentado pela perda dos pais. Além disso, por conta de suas precoces responsabilidades, não podia ter amigos de sua idade e mesmo com seus irmãos, o contato era limitado. Teve, dessa forma, uma infância triste e solitária o que lhe tornou tímido e retraído.

Porém, o menino encontrou nos livros um refúgio para sua solidão. Desde cedo, passou a apreciar a leitura e devorava livros de todos os tipos e em várias línguas. Com o tempo, Dom Pedro II se tornou um erudito. Aprendeu inglês, francês, latim, grego, árabe e até tupi-guarani. Estudou história, filosofia, religião, geografia, matemática e biologia. Interagiu pessoalmente com inúmeros intelectuais da época como Darwin, Nietzsche e Wagner, que se espantaram com a sabedoria daquele imperador de uma terra tão distante.

Na esfera militar, Dom Pedro II se mostrou um estrategista e um bravo guerreiro. Conduziu diversos conflitos e venceu todos, dentre eles a terrível Guerra do Paraguai (1864 a 1870), ainda que por muitos condenada como um dos maiores genocídios da história das Américas.

No âmbito moral, a conduta de Dom Pedro II era exemplar. Sempre discreto, nunca ostentava sua majestade. Chegou a determinar o fim dos bailes da Corte em 1852. Recusou repetidas vezes propostas de aumento de seus benefícios, bem como qualquer tipo de luxo, dizendo: “Despesa inútil é furto à nação”. Exigia também que os funcionários do Império trabalhassem 8 horas por dia criou uma rígida política de gestão baseada na moralidade e no mérito.

Lutou contra a escravidão, que considerava “uma vergonha nacional”. Nunca possuiu escravos. Enfrentou as oligarquias e promulgou a Lei do Ventre Livre em 1870, determinando que todas as crianças nascidas de pais escravos seriam livres. Sua filha, Princesa Isabel, em 1888, promulgou a Lei da Abolição, tornando ilegal a escravidão no Brasil.

Mesmo com tudo isso, seu reinado teve um triste fim. No auge de sua popularidade (o povo amava Dom Pedro II), um pequeno grupo de militares descontentes deu um golpe de estado e extinguiu o Império, criando a República em 1889. Dizem que o Marechal Deodoro da Fonseca, líder do golpe, era amigo pessoal de Dom Pedro II e que teria pedido desculpas ao Imperador, quando o acompanhou para o embarque ao exílio em Portugal. Dom Pedro II, na ocasião, teria soltado um sonoro palavrão em retribuição.

Mas Dom Pedro II era um homem da paz. Não deixou que o país entrasse em guerra civil e nunca apoiou qualquer tentativa de restauração da monarquia. Viveu seus últimos anos da mesma forma com que começou sua vida: solitário. No exílio, teve uma vida modesta e recusou solenemente a proposta do governo da nova república brasileira de lhe dar uma pensão. O ato da república querer dar uma pensão ao Imperador deposto é algo insólito após um golpe de estado e só reforça o respeito e a admiração que todos tinham por ele. A recusa do Imperador, além disso, reitera o seu caráter.

No leito de morte, em 1891, Dom Pedro II disse: “Se eu não fosse imperador, desejaria ser professor. Não conheço missão maior e mais nobre que a de dirigir as inteligências jovens e preparar os homens do futuro.”

Dom Pedro II morreu aos 66 anos de idade, dos quais praticamente 50 passou como Imperador do Brasil, como um exemplo de moralidade e de amor à cultura. Foi enterrado em Portugal, tendo sob sua cabeça um livro, simbolizando sua dedicação ao conhecimento.

Hoje, os restos de Dom Pedro II descansam na Catedral de Petrópolis, para onde foram trasladados em 1921, a tempo das comemorações do Centenário da Independência em 1922. A cerimônia foi uma comoção nacional, com milhares de pessoas. “Os velhos choravam. Muitos se ajoelhavam. Todos batiam palmas. Não se distinguiam mais republicanos e monárquicos. Eram brasileiros.”, conforme descrito pelo historiador Pedro Calmon.

Esse texto não é uma defesa da monarquia. É muito difícil, senão impossível, prever o que teria sido do Brasil se a República não tivesse sido instaurada. Esse texto é apenas a valorização da vida de uma pessoa, cujo exemplo é uma pungente inspiração para todos aqueles que amam a profissão de professor.

Tumba de Dom Pedro II na Catedral de Petrópolis, no Rio de Janeiro

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* O II Reich foi o império que surgiu com a unificação da Alemanha por Bismarck em 1871, a partir do reino da Prússia, o qual se tornou uma das províncias do novo Império Alemão. O II Reich durou até o fim da I Guerra Mundial, em 1918, quando Guilherme II, o último Kaiser do Império da Alemanha, abdicou. Com o fim da I Guerra, foi instalada uma república parlamentar conhecida como República de Weimar, a qual foi abolida em 1933, com a ascensão de Hitler ao poder, quando surgiu então o III Reich. A Prússia, como Estado, foi abolida pelos nazistas em 1934 e legalmente encerrada pelos Aliados em 1947.‌

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